ZÉ EDUARDO NAZÁRIO
INDEPENDÊNCIA OU MORTE
Pedro Rosas
No período da ditadura militar - que assolou a produção cultural brasileira
no final dos anos 60 - tornou-se exígua qualquer possibilidade de se fazer música
que não fosse no território da MPB. Essa dificuldade foi sentida principalmente
por artistas experimentais, na maioria vindos da música instrumental. Com a
forte censura instalada no país, muitos gênios da bateria, como Edison Machado
e Dom Um Romão, foram obrigados a deserdar o Brasil, e a criar seus frutos em
terras longínquas. A geração de bateristas que nasceria a seguir, no final dos
anos 70, acabou alimentando-se, quase que exclusivamente, dos ensinamentos deixados
por esses grandes mestres expatriados.
Entre esses discípulos, destaca-se Zé Eduardo Nazario, baterista, percussionista
e compositor, que soube aproveitar muito bem dessa herança - e do início de
uma abertura democrática - para demolir os muros que embargavam a música instrumental
brasileira. Nazario, o ZEN, acabou lançando, com o Grupo Um, a primeira obra
instrumental independente produzida no país, o disco "Marcha Sobre a Cidade",
de 1979, um verdadeiro e fulminante marco histórico para a música brasileira.
A partir daí, a carreira de ZEN prosseguiria por mais três décadas. Durante
esse período, tocaria com artistas consagrados internacionalmente, como Hermeto
Pascoal, John McLaughlin e Joe Zawinul. Em 1997, ganharia homenagem do governo
da Índia pelo trabalho como tablista e divulgador da cultura indiana no Brasil.
Em 1998, seria indicado ao prêmio Grammy (categoria "best jazz performance")
pelo disco Babel, ao lado do grupo Pau Brasil. Para este ano, Nazario traz mais
uma grande notícia: o relançamento de seu segundo disco com o Grupo Um, o desafiador
"Reflexões Sobre a Crise do Desejo", de 1981, que acaba de ganhar uma versão
em CD, remasterizada pelo selo Editio Princeps. Uma obra que sai do forno para,
mais uma vez, servir a música instrumental e homenagear um de seus maiores desbravadores,
o paulista Zé Eduardo Nazario.
Você é um pioneiro na história da música instrumental independente no Brasil.
Como foi produzir esse tipo de música no final dos anos 60, numa época em que
não havia espaço para experimentalismos?
Na verdade, a história toda começa por volta de 1967. Nessa época já estávamos
começando a trabalhar, principalmente em São Paulo, uma música mais livre, que
não fosse cópia da música de fora, ou seja, uma música que dialogasse com elementos
brasileiros. Bateristas como Dom Um Romão, Edson Machado, representavam para
a música brasileira o mesmo que Art Blakey, Philly Joe Jones representavam para
o jazz americano. Viemos a partir deles, somos uma evolução deles. Esses caras
eram os ídolos de nossa geração, formada por Guilherme Franco, Nenê, Paulinho
Braga. Eu era um pouco mais novo. Comecei minha carreira muito cedo - com 13
anos eu já atuava como profissional e eles já tinham 19 ou 20 anos. Estávamos
juntos, batalhando nossa entrada no cenário musical dentro de São Paulo e do
Rio de Janeiro. Tínhamos uma concepção musical um passo à frente do que Milton
Banana, Edson Machado e Dom Um haviam feito nas décadas passadas. Por isso eu
volto nesse momento da história. Nós vimos e ouvimos todos esses ídolos lá no
começo dos anos 60, e como aprendiz você sempre tem que seguir alguém. Nós seguimos
esses caras. Do mesmo modo, Art Blakey, Max Roach, Joe Jones, foram exemplos
de dedicação e musicalidade para a década seguinte, com Tony Williams e Jack
De Johnette. Aqui no Brasil não foi diferente. Tivemos uma grande escola a ser
seguida. Quando chegou nossa vez, criamos um trabalho baseado em algo que já
tinha sido feito, mas um degrau acima na escada da evolução.
E quando foi, efetivamente, que você começou a fazer música experimental?
Como havia dito, tudo começou em 1967, com o Grupo Experimental de Percussão,
que eu montei com o Guilherme Franco. Todos nós trocávamos figurinhas. Sempre
buscamos ouvir coisas diferentes, o que era muito difícil numa época em que
não havia vídeo-cassete, internet, essas coisas. Trabalhávamos com as informações
que tínhamos. Hermeto Pascoal e Airto Moreira também traziam algumas informações
dos EUA. Era uma turma de músicos que convivia intensamente e mantinha uma amizade
muito grande. Nos encontrávamos todas as noites. Assim, quando fui trabalhar
com o Hermeto, já tinha uma vasta bagagem musical, já fazia um estilo de música
mais contemporânea e vinha assimilando vários estilos para tentar criar uma
coisa nova. O grupo do Hermeto foi o primeiro grupo no Brasil que se propôs
a fazer música instrumental de maneira profissional. Era um núcleo de pessoas
preocupadas em criar uma sonoridade mais moderna, mais contemporânea. Dentro
desse grupo, estavam meu irmão Lelo, nos teclados, e o baixista Zeca Assumpção.
Com eles, comecei a trabalhar composições próprias, explorando coisas que fugiam
do estilo do Hermeto. Em 1977, quatro anos depois, estávamos criando o Grupo
Um.
O disco "Marcha sobre a cidade", de 1979, foi o primeiro disco de música instrumental
independente lançado no Brasil. Como foi essa conquista?
Ao contrário de Hermeto Pascoal, que era conhecido e já tinha tocado com Miles
Davis nos EUA, o Grupo Um encontrou um caminho muito difícil pela frente. A
situação era realmente muito difícil. De fato, não havia um mercado de trabalho
para a música instrumental no Brasil. Para o que fazíamos, menos ainda. Então
tivemos que criar esse mercado. Começamos a arrumar lugares pra tocar. Começamos
a fazer aquelas sessões que eles chamavam de "Sessão Maldita", que aconteciam
às segundas-feiras à meia-noite. Uma coisa alternativa mesmo, underground. Com
isso fomos conquistando o público. Depois de algum tempo, como as gravadoras
não davam a menor atenção para a música instrumental, chegamos à conclusão de
que precisaríamos fazer um disco independente. Foi o que aconteceu em 1979,
quando lançamos "Marcha Sobre a Cidade", de fato o primeiro disco independente
de música instrumental lançado no Brasil. Com o disco, arrumamos uma temporada
no teatro Lira Paulistana. Dessa temporada, que se tornou um sucesso, foram
aparecendo vários grupos independentes. Em 1983, o sucesso era tão grande que
a música instrumental passou a ocupar espaço na mídia oficial e ganhar a atenção
das gravadoras. Além disso, paralelamente ao Grupo Um, eu, o Zeca e o Mauro
Senise, trabalhávamos com o Egberto Gismonti, outro músico notório que também
nos ajudou a ganhar reconhecimento. Trabalhar com o Hermeto e o Egberto colaborou
para que o Grupo Um fosse muito bem sucedido quanto à criação de um mercado
para a música instrumental de vanguarda. Conseguimos realmente abrir espaço
para esse tipo de música no Brasil. Depois disso houve uma mudança na estratégia
de mercado. Houve uma forte busca por uma música mais popular com a entrada
do rock, com Titãs, Ira!. Não há dúvida de que o rock tem um apelo comercial
muito mais forte do a música que a gente fazia. Inclusive alguns desses bateristas
do rock foram meus alunos. Foi um período em que comecei a dar muitas aulas
em função da escassez de trabalho. Em 1984, não tinha tempo para mais nada.
O Grupo Um também já não produzia mais e cada um seguiu seu caminho individual.
Vocês se consideram, deste modo, legítimos precursores da música instrumental
brasileira?
Não temos o direito de considerarmos precursores. Já havia música instrumental,
mas não independente, não essa música mais livre, de vanguarda. São coisas que
estão documentadas através do tempo. "Marcha Sobre a Cidade" é um fato histórico,
não sou eu que estou dizendo. Existiu um período anterior ao nosso que já havia
música instrumental. Entretanto, quando entrou a ditadura, o AI-5, em 1968,
isso tudo acabou, não sobrou mais nada. Eles arrasaram tudo. Todos esses músicos
que citei, anteriores ao trabalho do Hermeto, a ditadura fez questão de apagar
da memória das pessoas. Os que conseguiram continuar foram os que partiram para
os EUA, para a Europa. Aqui não ficou ninguém. O nosso trabalho começou a partir
de uma terra arrasada. Mesmo com a ditadura havia músicos com vontade de trabalhar,
mas num território completamente arrasado. Nós reconstruímos a música a partir
de um sistema político que destruiu tudo e colocou a novela em primeiro lugar.
O povo brasileiro estava restrito a assistir televisão em casa, porque não podia
sair na rua, com medo de ser metralhado. Foi essa realidade que vivemos, de
passar em pente-fino quando íamos tocar na noite. Tinha o exército bloqueando
as ruas, revistando todo mundo. Se eles não fossem com sua cara, metiam uma
bala e pronto, ninguém reclamava, com medo de levar tiro também. Começamos de
uma situação totalmente adversa. Não tínhamos escola, não tínhamos livros, não
tínhamos informação. E são fatos reais. Não sou eu que estou dizendo, não sou
eu que me considero alguma coisa.
Hoje vivemos uma época bem diferente, onde há espaço para a criatividade e também
para a produção independente. Apesar disso, não presenciamos nada que represente
uma vanguarda musical relevante. Para você, vivemos uma espécie de apatia musical?
É um novo ciclo que se repete em condições diferentes. A Internet é um fator
que, ao mesmo tempo que positivo, segura as pessoas em casa na frente de uma
tela, substituindo o que a televisão fazia naquela época. Está tudo voltado
à Internet, e a música acaba sofrendo as conseqüências. O músico, por exemplo,
depende das pessoas saírem na rua para vê-lo tocar. São Paulo, por sua vez,
está muito bem, oferecendo muitos lugares para tocar. Porém, vejo a questão
da remuneração como um problema muito grave. Hoje o músico tem que fazer muita
coisa se quiser ganhar dinheiro. Com isso acaba não tendo tempo para se dedicar
ao trabalho criativo. Para criar música contemporânea, você precisa de muito
tempo de trabalho, muitos ensaios e ajustes. Essas são algumas questões que
podem estar contribuindo para essa apatia. Está todo mundo correndo atrás do
pão de cada dia, sem tempo para pesquisa, sem tempo de desenvolver um trabalho
consistente.
Você abordou a questão da tecnologia, que faz com que a produção se torne mais
simples e ágil. Por ter tudo às mãos, cria-se menos?
Talvez exista uma acomodação em função da facilidade que a tecnologia traz.
Existe também o papel da imprensa em incentivar o progresso criativo. De fato
podem ser criadas condições para que o mercado musical se fortaleça. Isso pode
ser estimulado pelos meios de comunicação. Caso contrário, as coisas não vão
mudar, porque as pessoas se apegam por aquilo que elas observam, por aquilo
que está sendo apresentado pelos profissionais da mídia. Esses profissionais
deveriam sugerir e incentivar a criação e a pesquisa. É uma questão muito importante.
No disco "Reflexões Sobre a Crise do Desejo", que acaba de ser relançado em
CD, vocês levam a música instrumental a uma radicalização máxima, abusando das
experimentações rítmicas e melódicas. Seria possível rotular um estilo para
o Grupo Um?
Não, porque, na verdade, não tocamos um único estilo. Se você ouvir os três
discos do Grupo Um, você percebe que são todos diferentes. Existe o free-jazz,
os ritmos brasileiros, existe a preocupação estilística em criar algo verdadeiramente
original. É muito complexo para darmos um rótulo. É uma coisa bastante diferente
do que se fazia antes. Naquela época, quem tocava bossa nova, só tocava bossa
nova. Mas não era assim com a gente. Não tínhamos um estilo definido. Apenas
fazíamos um tipo de música que envolve um grande conhecimento técnico, e muito
estudo. Nisso podemos nos comparar à música erudita. Depois vem o improviso,
que se compara ao jazz. Também usamos escala modal; escala politonal, na onda
do Stravinsky; escala atonal, criada por Schoenberg. É um universo muito grande,
que não se pode rotular. Seria o mesmo que chamar universo de migalha.